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Cronica e arte

CRONICA E ARTE  CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com Rua São João 869,  14882-010 Jaboticabal SP
O CORAÇÃO DELATOR Verdade! --nervoso --muito, muito, ...terrivelmente nervoso eu estive e estou; mas por que você vai dizer que eu sou louco? A doença havia aguçado meus sentidos – não os tinha destruído - não entorpecido. Acima de tudo, o sentido da audição era aguçado. Eu ouvi todas as coisas no céu e na terra. Eu ouvi muitas coisas no inferno. Como, então, estou louco? Ouça! e observe quão saudável - quão calmamente posso contar a você toda a história. É impossível dizer como a ideia entrou primeiro em meu cérebro; mas uma vez concebida, ela me perseguia dia e noite. Objetivo não havia nenhum. Paixão não havia nenhuma. Amei o velho. Ele nunca me enganou. Ele nunca me insultou. Por seu ouro? Eu não desejava. Acho que foi o olho dele! sim, era isso! Ele tinha o olho de um abutre - um olho azul claro, com uma película sobre ele. Sempre que caía sobre mim, meu sangue gelava; ...e assim, gradualmente - muito gradualmente - resolvi tirar a vida do velho e assim me livrar daquele olho para sempre. Agora é esse o ponto. Você me imagina louco. Os loucos não sabem nada. Mas você deveria ter-me visto. Devias ter visto como procedi sabiamente - com que cautela - com que previsão - com que dissimulação comecei a trabalhar! Nunca fui mais gentil com o velho do que durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta da meia-noite, eu virei o trinco de sua porta e a abri - oh tão gentilmente! E então, quando assim agi, quando fiz uma abertura suficiente para minha cabeça, coloquei uma lanterna escura, toda fechada, fechada, que nenhuma luz brilhava, e então empurrei minha cabeça. Oh, você teria rido ao ver como eu a empurrei astuciosamente! Eu a movia devagar - muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levei uma hora para colocar toda a minha cabeça dentro da abertura, de modo que pudesse vê-lo deitado na cama. Ah! Será que um louco teria sido tão sábio assim, ...E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu desfiz a lanterna com cuidado - oh, tão cautelosamente - cautelosamente (pois as dobradiças rangeram) - eu desfiz apenas tanto que um único raio fino caiu sobre o olho do abutre. E fiz isso durante sete longas noites - todas as noites apenas à meia-noite - mas encontrei o olho sempre fechado; e assim era impossível fazer o trabalho; pois não era o velho que me irritava, mas seu mau-olhado. E todas as manhãs, ao raiar do dia, entrava ousadamente no quarto e falava com ele com coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como ele havia passado a noite. Na oitava noite, fui mais cauteloso do que o normal ao abrir a porta. ...O ponteiro dos minutos de um relógio se movia... ...mais rapidamente do que o meu. Nunca antes naquela noite eu havia sentido a extensão de meus próprios poderes - de minha sagacidade. Eu mal pude conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, abrindo a porta, aos poucos, e ele nem mesmo a sonhar com meus atos ou pensamentos secretos. Eu ri bastante com a ideia; e talvez ele tenha me ouvido; pois ele se moveu repentinamente na cama, como se assustado. Agora você pode pensar que eu recuei - mas não. Seu quarto estava escuro.... como breu com a escuridão densa (pois as venezianas estavam fechadas, por medo de ladrões) e então eu sabia que ele não podia ver a porta se abrindo, e continuei empurrando-a de forma constante, ...constante. Eu tinha minha cabeça dentro do quarto, e estava prestes a abrir a lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de lata, e o velho saltou da cama, gritando: "Quem está aí?" Fiquei imóvel e não disse nada. Durante uma hora inteira não movi um músculo e, entretanto, não o ouvi deitar. Ele ainda estava sentado na cama ouvindo; - assim como eu fiz, noite após noite, dando ouvidos às vigílias da morte na parede. Logo ouvi um leve gemido e sabia que era o gemido de terror mortal. Não foi um gemido de dor ou de tristeza - oh, não! - era o som baixo abafado, que surge do fundo da alma quando sobrecarregado de temor. Eu conhecia bem o som. Muitas noites, apenas à meia- noite, quando o mundo todo dormia, ele brotou de meu próprio seio, aprofundando, com seu eco terrível, os terrores que me distraíam. Eu digo que sabia bem. Eu sabia o que o velho sentia e tinha pena dele, embora tenha rido de coração. Eu sabia que ele estava acordado desde o primeiro barulho, quando se virou na cama. Seus medos vinham crescendo sobre ele. Ele vinha tentando imaginá-los sem causa, mas não conseguia. Ele estava dizendo a si mesmo - "Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão", ou "É só um grilo cricrilando um pouco". É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar dele, espreitou com sua sombra negra diante dele e envolveu a vítima. E foi a triste influência da sombra despercebida que o fez sentir - embora não tenha visto nem ouvido - sentir a presença da minha cabeça dentro da sala. Ao se aproximar dele, espreitou com sua sombra negra diante dele e envolveu a vítima. E foi a triste influência da sombra despercebida que o fez sentir - embora não tenha visto nem ouvido - sentir a presença da minha cabeça dentro da sala. Depois de esperar muito tempo, com muita paciência, sem ouvi-lo deitar, resolvi abrir um pouco - uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu o abri - você não pode imaginar como furtivamente, furtivamente - até que, finalmente, um raio simples e fraco, como o fio de uma aranha, disparou da fenda e caiu em cheio no olho do abutre. Estava aberto - muito, muito aberto - e fiquei furioso enquanto olhava para ele. Eu o vi com perfeita nitidez - todo um azul opaco, com um véu horrível sobre ele que gelou até a medula em meus ossos; mas não pude ver mais nada do rosto ou da pessoa do velho: pois dirigi o raio como que por instinto, precisamente sobre o maldito local. E eu não lhe disse que o que você confunde com a loucura é apenas uma agudeza de sentido? - agora, eu digo, chegou aos meus ouvidos um som baixo, surdo, rápido, como o de um relógio envolto em algodão. Eu também conhecia aquele som. Foi a batida do coração do velho. Isso aumentou minha fúria, pois o bater de um tambor estimula o soldado à coragem. (continua...)
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Edgar Allan Poe
fotos e imagens: internet  divulgação EBC tradução:  Editoria do Site Cronica e Arte
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