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Cronica e arte

CRONICA E ARTE  CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com Rua São João, 869,  14882-010 Jaboticabal SP
O medo do riso e o carnaval fascista. Recentemente a filósofa Márcia Tiburi fugiu ao debate no programa da rádio Guaíba, de um tal apresentador de curioso nome Juremir, quando para sua surpresa, Kim Kataguiri, do MBL, apareceu para ocupar a outra cadeira vaga, no dia do julgamento do ex-presidente Lula. Simplesmente levantou-se, despediu-se de Juremir e foi embora. Olhem isso: ela é autora de um livro chamado: “Como conversar com um fascista”. É claro que o jovem Kim, pelo o que lemos de seus artigos e pelo que assistimos nos vídeos, certamente não é um fascista; mas fica óbvio para nós que para a filósofa ele é um por simplesmente pensar diferente e não defender Lula e PT. É visível que Tiburi não domina tão bem o ofício quanto deveria, tendo recusado ao debate com o seu oponente o inteligente jovem e articulador Kim; e sabemos que pela profissão ela é preparada para exercer a troca de ideias, mas não foi bem o que se sucedeu. Isso me fez lembrar da potente frase do querido Professor Orlando Fedeli, e que gosto muito: “Temos mais medo dos risos do que dos tiros”. Tremendo de verdadeiro. Confesso que já fugi de muitas ocasiões por despreparo, devido à falta de jeito, ou por medo do riso dos outros. Nos sentimos inferiorizados, até humilhados e ridicularizados em meio a tanto opinionismo ou achismo dos que relincham ou defendem muito bem ou (maioria das vezes) mal os erros do mundo, contrários aos nossos, na base do gogó e do jeito malandro e arrogante de ser. Lembro de outra frase, essa do escritor argentino Miempo Giardinelli: “só os ignorantes opinam. ” Não é radicalismo concordarmos com essa sentença hoje em dia, no século em que querem enterrar a verdade, onde o certo e errado não podem ser avaliados como critério de base para se fazer o que é correto e justo. Por certo, só os padres não têm opinião, e nem devem a ter. A democracia sem limites é louvada em todos os cantos em atual época moderna e nas diversas bocas ouve-se muito desse chiclete a ser repetido: “vivemos numa democracia”, mas existe um medo oculto por ela, mesmo para os que a defendem ardentemente, essa é a grande verdade. O cineasta Glauber Rocha era uma espécie de bicho papão da democracia, um fantasma que surgia com câmera e microfone na mão, não pela representação contrária desse regime, como exemplo o autoritarismo, e sim pelo seu lado brincalhão, curioso e desafiador de querer provocar e saber a opinião das cabeças de seu tempo. Nos anos 70 ele apresentava um quadro no Programa Abertura, da extinta TV Tupi, onde fazia perguntas para o cidadão comum que encontrava nas ruas, ao jeito cinema-novo de se fazer. Em um desses programas - que tem disponível no youtube -, ele entrevista um negro, homem comum, chamado Brizola, e pergunta a queima roupa se ele sabe o que é, por exemplo, democracia, ditadura, reforma agraria... o que ele acha sobre tal assunto, ou se já ouviu falar. Vemos que o humilde homem não faz o canastrão, e diz a verdade de frente a câmera do maluco beleza Glauber, sem medo e com coragem de assumir o temível e terrível: “não saber”. Depois que assisti a esse vídeo confesso que fui tomado pelo "medo" de algum tipo como o Glauber esbarrar comigo na rua de assalto e perguntar: “o que é tal coisa? ”. Esse é o medo da democracia. É sempre melhor fugir ou correr dos tiros, se preciso, do que lhe dar com o imbróglio acaso e ter de enfrentar os risos. Todos os tem. Enfrentar o mundo é para poucos e não para todos. E os mais diplomados, assim como a orgulhosa Tiburi, devem a ter em maior grau do que nós, simplórios humanos que não acreditamos em socialismo ou feminismo, mas isso não é justificativa para ela ter picado a mula, e ainda mais, ao vivo. Que vergonha.   Carnaval O carnaval – pelo menos o daqui de São Paulo – é e está uma tristeza. De alguma maneira a famosa frase do grande Vinícius de Moraes em que diz que “São Paulo é o tumulo do samba”, prefigurou esses bloquinhos que enchem as ruas de falsa alegria e impõem a mordaça. Conforme os anos passam há sempre mais campanhas, e agora é vez do “não é não” das mulheres. Desde que eu saiba, as vezes o não pode tornar-se um sim, dependendo de como o cavaleiro conduz o andar das cantadas e investidas que a própria festa encoraja nos foliões apaixonados. E a terrível e nojenta propaganda em que o site do Catraca Livre anunciou nas redes sociais, ditando o que não se deve usar de fantasia em respeito aos “povos marginalizados”. Lá vai a lista: "homem vestido de mulher; índio ou índia; cigano(a); empregada doméstica ou enfermeira; nega maluca; Iemanjá; muçulmano." Como é possível alguém em sã consciência defender uma coisa dessas? Esses sinais do tempo são de doer o coração. O politicamente correto mostrando não só a cara, mas desta vez os dentes, sendo ridículo e sem medo de o ser. E o brutal vídeo é narrado por uma mulher, de modo natural, como se o carnaval sempre tivesse sido um antro de preconceitos, e que a partir de agora acontecesse uma inversão dessa ordem festiva que sempre fora livre e aversiva a caretices do se autocensurar. É uma lastima. Veio-me em mente a triste face de Adoniram Barbosa, pintada pelo artista Elifas Andreato, com uma lagrima escorrendo, em vista ao carnaval fascista de sua querida São Paulo.    
Pedro Bueno Nascido em Barretos, Pedro Bueno é um romancista ainda sem cria, e afinado cronista da vida em São Paulo, onde segundo ele, sobrevive. Escreve para revista virtual Contos & Letras, tendo uma coluna intitulada de ‘O golpe da língua’, onde fala de literatura. Apegado a memória e ao cinema, transcreve tudo para seu computador, seu mais íntimo confidente das palavras. Já se aventurou pelo teatro, e segundo ele, o que o estraga e o fez sair, foi um culto a coletivização das funções de cada, onde o trabalho de autor é deixado de lado
FATOS & IDEIAS COM pedro bueno
Jaboticabal, 10 de fevereiro de 2018 foto/ilustraçãpo: Elifas Andreato