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Cronica e arte

CRONICA E ARTE  CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com Rua São João 869,  148882-010 Jaboticabal SP
AQUELAS PAREDES por Mentore Conti Caiu a tarde...  e o gorjear de pássaros vinha substituir a algazarra doa meninos da vizinhança, agora escureceria rápido e a noite traria o silencio de sempre, com o abraço de namorados que nós vemos de tanto tempo... ah que saudades. E pensar que há alguns anos, dois moleques iguais àqueles que sempre brincam aqui em frente moravam conosco e tínhamos uma fachada imponente, que a todos chamava a atenção. O tempo, caro amigo é inexorável, ao menos foi conosco... e quando fomos abandonadas o declínio veio rápido. Em poucos meses as janelas perderam os vidros e as teias de aranha substituíram o alvoroço matinal da Maria, uma das crianças que moravam aqui. Gulosa, pensava em brincar de cozinha, em doces e nos aniversários já ficava imaginando como seria o bolo, será que é o mal de todas as Marias? Não sabemos. A família que morou aqui foi a que nos construiu, só tivemos aqui uma única Maria e não poderemos confirmar se todas são assim. Vivenciamos muita coisa, litígios, rancores, alegrias, o ser humano é curioso, gosta de complicar tudo, quando cresce fica complicado, me lembro... as crianças não eram tão assim complicadas, mas os pais, a correria por nos manter, nos lavar... Ouvi dizer que somos registrados em cartório, bom, mas eles humanos também são. Registrar em cartório.... Cada coisa .... E pior que pelo que me lembro, eles levavam mais a serio os registros em cartório do que a felicidade deles mesmos. Me lembro do Manuel, o irmão da Maria, pedia que brincassem com ele, mas os pais, o Seu Julio e Olga, nunca tinham tempo, alias, não sei definir o tempo,..... Estranho, mas porque as pessoas se apegam a isto para não pararem, para não sonhar, não conversar. Olhe que a janela da frente já me disse que perdeu a conta de quantas pessoas passam esbaforidas, em direção à casa, quando não vão ter mais nada o que fazer, mesmo num domingo a tarde.. e olhe que num domingo a tarde nunca vimos movimento algum.... Quando o seu Julio e sua família moravam  aqui, ele sempre resmungava disto. O tempo, ele dizia as vezes, quando estava em situação difícil, passava tão devagar, outras vezes, quando estava feliz, ele dizia quer ia tão depressa. Acho que ele não gostava do tempo. Eram tão ruidosos as vezes, as crianças então, viviam nos sujando, lembro aquela vez que a Maria tirou um pedaço do meu reboco!! Ah! Que levada.... Atrás ali daquela porta sobrou um toca-discos, era uma raridade,  mas eles quebraram e na mudança ficou pra trás, parece que no aparelho tem um disco quebrado também, mas isto não é importante a ninguém. Quem deu o disco de presente, nunca saberá o que foi feito dele!!! E será esquecido como o toca-discos, talvez.... como a gente foi.... Deixaram também um vaso, destes de cerâmica, e alguns objetos de nenhuma importância... eram alegres, mas de certo modo vazios como o vaso que ficou.... esta casa era assim... vimos as crianças crescerem até que mudaram, vimos os rancores e risos do casal e agora tudo ficou para trás. Tudo e nós. Nossa pintura não tem mais a vivacidade de antes, a poeira das horas dá conta de desfazer tudo, estamos trincando agora, olhem, talvez não fiquemos em pé por mais um ano, ou ao menos parte nossa, nosso cimento e os tijolos estão enfraquecendo cada vez mais. Nos anos 70 quando nos fizeram, éramos diferentes, belas, linhas arrojadas, perto de nossas vizinhas, algumas já modificadas por completo, éramos uma inovação, mas agora, vazias e abandonadas assim, ...o tempo apenas passa, derrubando-nos lentamente, o tempo que o seu Julio não gostava. Eles brincavam ali naquele jardim, Manuel era levado também, mas ninguém ganhava da Maria, se escondiam aqui no porão... temos porão viu?! Quem sabe não esqueceram nada lá?.... uma lembrança que fosse. Saberíamos se tivessem deixado, só o vaso mesmo... vazio... Onde estariam agora? Que estarão fazendo?, Afinal já se passaram quarenta anos... Nossa, quarenta anos... Manoel e Maria já devem estar casados. Outro dia vimos passar um senhorzinho, parecia o Seu Julio, já bem arcado de anos, lento, mas não era ele... Estarão  vivos? ... eles se foram deixando imensas saudades...