Home Música Noticias Literatura Contatto Serviços Pagina 8 Livros Outros...
Cronica e arte

CRONICA E ARTE  CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email cronicaearte@cronicaearte.com Rua São João 869,  14882-010 Jaboticabal SP
ATENÇÃO! ATENÇÃO! ATENÇÃO! Um artigo de Waldomiro Camilotti Neto  foto da obra de Salvador Dali (internet) Jaboticabal 8 de setembro de 2017 A ciência já confirmou que nós, seres humanos, não conseguimos manter a atenção focada em duas coisas ao mesmo tempo. Em que pese a correria do dia a dia, da qual nos faz acreditar que nossa atenção está focada em mil coisas ao mesmo tempo, sofremos essa limitação. Assim, não somos capazes de assimilar 100% do mundo a nossa volta. Dentro de uma perspectiva evolucionista, milênios de evolução humana nos proporcionaram a capacidade de realizar os mais fantásticos feitos, porém podemos evoluir mais alguns milênios e dificilmente chegaremos à perfeição. Sempre vai faltar algo. O antigo testamento nos diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Semelhança e não perfeição, assim, sempre vai faltar algo. A humanidade, sufocada por sua suposta superioridade, deixa passar despercebida essa característica, pois, como disse o Pensador, a perfeição só existe no mundo das ideias. Essa falta de capacidade de assimilar 100% do mundo que nos rodeia é fantástica, pois possui uma razão evolutiva para ocorrer, porém, por outro lado, na vida moderna pode trazer outras consequências. Sempre achei muito interessante o que os mágicos fazem. As coisas aparecem e desaparecem em um piscar de olhos. Ficava maravilhado quando ia ao circo e o mágico fazia uma pessoa sumir, se transformar em um tigre, fazia sua auxiliar levitar e quando tirava o coelho da cartola era o ápice. Não tem quem não se espantava, se divertisse e ficasse perguntando como é que aquilo acontecia ali, bem diante de todos. Há alguns anos um mágico maluco resolveu demonstrar como os truques acontecem e, assim como ele, muitos outros o fizeram. Receberam muito destaque na mídia, pois, afinal de contas, um mágico não poderia contar como é que seus truques eram realizados. Depois disso os truques não perderam seu encanto, mas dá a impressão de que não surpreendem tanto quanto antes. Com os segredos revelados ficou claro que o mágico ao fazer as coisas sumirem e reaparecem utiliza-se dos pontos cegos que temos (sim nós temos pontos cegos), e, chamando a atenção para o local onde a mágica vai acontecer, tira de seus bolsos, chapéu etc. os objetos da realização de seu trabalho. E a mágica acontece. É realmente fantástico quando o mágico faz com que o relógio que estava com um espectador apareça em seu próprio pulso. Ele se aproxima do participante e em segundos, de forma imperceptível, está feito! As belas damas dançando no palco, ao se realizar aquela inacreditável mágica, têm por finalidade mudar a sua atenção para que não veja como tudo acontece. Mas não se esqueça, é tudo um truque! Entretenimento! Mas é  maravilhoso. Exposto isso questiono se serão os mágicos os únicos a utilizarem esta técnica de mudança de atenção, para que observemos apenas o que eles querem enquanto fazem outra coisa. Acredito que não. Na antiguidade, quando o império Romano passava por dificuldades de manter seu povo sob controle, realizava a distribuição de alimentos e jogos gratuitos, justamente para mudar o foco e evitar rebeliões. Isso fez com que os romanos mantivessem a calmaria por algum tempo. Já ouviu falar da política do pão e circo? Já nos dias de hoje, temos uma gama de distrações, poluição visual, auditiva e até distrações, digamos, psíquicas, pois nos afetam em nossa capacidade de raciocinar. Vejamos: você esta andando com seu carro na rua e ele cai em um buraco. O pneu se desfaz e você fica na mão, vai comprar um pneu novo. Ai um parente seu passa mal e tem que ser socorrido. Vai para um hospital público para ser atendido e você se depara com uma situação caótica e perturbadora. Vai matricular seu filho na escola pública, que tem fama de ser de má qualidade, acha que isso não está certo e aumenta sua jornada de trabalho, recalcula suas finanças, para pagar por uma escola particular para que seu filho tenha uma boa formação e garanta seu futuro. Recorda-se de seu parente que passou mal e vai trabalhar mais um pouco para poder pagar um plano de saúde para você e sua família, visando não passar pela mesma situação. E você trabalha e trabalha. Paga tributos para ter uma saúde pública de qualidade e não tem. Paga tributos para ter uma escola pública de qualidade e não tem. Paga para ter uma infraestrutura de qualidade e não tem. E o crescente índice de violência, nem se fala. E você já está cansado de trabalhar tanto e pagar tantos tributos que você fica reclamando com todo mundo que encontra na fila do banco, do cinema, da pipoca, da vergonha, da revolta, da tristeza. É o país do futebol com eleições a cada quatro anos, que coincidem exatamente com copa do mundo. E a seleção ganha, você fica feliz. E ela perde, fica triste. São horas gastas inutilmente em redes sociais observando coisas ou conversando assuntos que em nada engrandecem a vida. Como visto, isso não é coisa nova, o difícil é acreditar que ainda funciona tão bem. Não seriam tais ocorrências tidas como cotidianas mais um meio fantástico de tirar a nossa atenção e fazer com que a foquemos em outro lugar. E nesse frenético vai e vem da vida moderna, o mágico lhe tirou do pulso o relógio e você não percebeu. O problema é que este mágico não é como o outro, um profissional do entretenimento, mas sim é aquele mágico que criou tantas distrações para lhe tirar tantas coisas que você sequer se deu conta e, no final, mesmo quando percebeu que ele retirou-lhe o relógio o truque acabou, mas ele, ao contrário do outro, não vai devolver o relógio. E assim se passam os dias, os meses e os anos e a sua atenção foi gasta no lugar errado. A partir de agora em vez de se deleitar assistindo a apresentação, fique de olho apenas no mágico, pois quem sabe não deixará que lhe engane e lhe retire qualquer coisa que seja, inclusive seu precioso tempo.  
Waldomiro Camilotti Neto é filósofo, advogado, professor universitário,  Especialista em Direito Processual do Trabalho e  Direito Administrativo.